Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Pelos caminhos da energia do futuro

Durante quatro dias, o DN acompanhou um grupo de 70 estudantes, metade nacionais, metade de outros 15 países. Finalistas de mestrados e doutoramentos, todos especializados em energias renováveis. Esta é a história de como eles viram o futuro de uma aposta portuguesa.

Quinta-feira, duas da tarde, o sol já aquece na Amareleja, Alentejo. Uma tenda branca ergue-se entre as colinas suaves, a interromper a simetria dos painéis da "maior central solar da Europa". A tenda serviu para receber a apresentação que o Governo acabou de fazer para as televisões. Mas parece deslocada, como uma mancha branca no azul que uma ligeira névoa impede de brilhar.

Pratos rectangulares alinham-se como se fosse um exército a vigiar o ar. Virada para os painéis, uma das finalistas de engenharia, portuguesa, deve ter visto algo de poético nas estruturas cinzentas. "Parecem flores", diz. Pergunto-lhe o que achou da viagem de quatro dias e a resposta é igual à que eu próprio daria: "Fiquei com uma visão diferente do País, da sua beleza, da cultura. E, em relação às renováveis, estamos mais avançados do que pensava".

Durante quatro dias, o grupo de estudantes percorreu dois terços do País, vendo fábricas, uma barragem, a central solar e dois parques eólicos. A ideia do Governo era mostrar uma faceta de Portugal pouco conhecida e que revela algum avanço tecnológico. A escolha dos estudantes foi feita pelos respectivos países e a curiosidade de cada um era evidente. Havia diversidade nas áreas de interesse no campo da energia renovável, sobretudo economia e engenharia. E alguns dos estudantes vinham das melhores universidades mundiais.

Entre as viagens, os economistas discutiam com os engenheiros e havia também as conversas dos cientistas, a trabalhar nos sectores mais avançados da área energética, como supercondutividade, células fotovoltaicas e de hidrogénio ou fusão nuclear. O vento foi o que mais os surpreendeu.

Para um país como Portugal, no meio da tabela em riqueza, a central eólica de Ventominho é um feito, pois estabelece uma espécie de liderança, colocando Portugal entre os primeiros cinco países do mundo neste tipo de produção de energia.

As estruturas de mais de 100 metros de altura e as pás de 41 metros erguem--se no topo da Serra do Gerês, na fronteira com a Espanha. Este parque eólico custou 360 milhões de euros e as suas 120 turbinas têm uma capacidade instalada de 240 Mw (megawatts). O parque foi completado há um mês e o edifício central ainda cheira a tinta. Aqui deverá produzir-se 1% da electricidade de Portugal. O vento frio empurra as pás de oito toneladas, uma espécie de asas gigantes produzidas numa fábrica em Viana do Castelo. Alguns estudantes estão boquiabertos. Os indianos entusiasmados. Vivek Agarwal, de Bangalore, explica que a energia do vento é aplicável na Índia, mas os aerogeradores portugueses (2Mw) serão grandes para o seu país, que precisará de turbinas com 0,5Mw.

Ao todo, Portugal já tem uma capacidade instalada de 3000 Mw na eólica. O vento é grátis e estas estruturas criaram empregos. Esta é também uma forma de financiar comunidades rurais: as freguesias à volta de Ventominho receberam 15% do capital, mas as acções foram vendidas. Estes detalhes surpreenderam os economistas. E os ingleses afirmavam que no seu país este parque seria improvável, pois as populações acham que as torres estragam a paisagem.

Para o futuro do vento, o governo português estabeleceu metas ambiciosas, 6100 Mw em 2012, mas é provável que a meta seja difícil de atingir. Não restam muitos sítios adequados para colocar os aerogeradores e a tarifa desceu devido à escala alcançada. Por isso, este tipo de energia ficou menos interessante para os consórcios produtores.

Uma objecção que o ministro da Economia, Manuel Pinho, desvaloriza. Segundo Pinho, Portugal tem condições ímpares para a produção de energia renovável. O vento, o sol e as ondas, sobretudo, mas há uma aposta em novas barragens.

E em relação à escassez de melhores lugares para os parques eólicos, o ministro garante que há o suficiente para mais 5000 Mw (o que elevaria a capacidade a 8000 Mw). Isto, claro, se o País continuar com vento de feição. C O DN viajou a convite do Ministério da Economia


A vantagem do ambiente estável

As decisões políticas em matéria de energia permitiram na última década criar um sistema que favoreceu o crescimento do eólico

Em Portugal, o impulso das energias renováveis foi político, para evitar o impacto macroeconómico e ambiental do petróleo, cuja queima produz elevadas emissões de dióxido de carbono. "Nas eólicas conseguimos criar fábricas, há um cluster industrial. Foi a solução certa", explicou ao DN João Peças Lopes, professor da Universidade do Porto, um perito português que falou com os estudantes e que respondeu às suas perguntas.

Leslie Martin, americana, e uma das estudantes que levantou mais questões, estava particularmente interessada nos custos do transporte da energia. Na sua opinião, este era um dos principais problemas do sistema português, pois a dispersão dos aerogeradores implica perdas nas linhas e cabos. Mas Leslie também explicava que os portugueses conseguiram "de forma inovadora" integrar as energias renováveis na sua produção eléctrica.

Esta opinião, aliás, era comum a vários estudantes estrangeiros, que sublinhavam o facto de Portugal não ter as patentes, onde estará o rendimento mais sério. No entanto, o País organizou um sistema que levou dez anos a criar e que já é responsável por 43% da nossa electricidade, isto incluindo as hídricas. Este êxito baseia-se numa certa estabilidade no ambiente do negócio, nomeadamente no complexo sistema de tarifas suportadas pelos consumidores de electricidade.

Da energia produzida em Portugal, 12% vem dos parques eólicos, o equivalente a duas centrais nucleares. A comparação com o nuclear não é inteiramente exacta, pois uma central eólica pode trabalhar à volta de 3 mil horas por ano, enquanto a nuclear o faz por mais de 8 mil horas. O ambiente regulatório inclui uma directiva comunitária que dá prioridade à electricidade produzida por fontes renováveis, como sol, vento ou água. Segundo Peças Lopes, esta lei retiraria competitividade a uma central nuclear, caso houvesse decisão política de construir uma em Portugal. Como a electricidade das fontes renováveis entraria primeiro na rede, sendo a suficiente em parte do tempo total, a central estaria parada em largos períodos, implicando preços mais elevados no pico de consumo, para compensar o investimento e as horas perdidas.

O nuclear será a solução para países que dominem a tecnologia mas sem grandes recursos de vento ou sol. A Rússia é um exemplo nítido desta limitação. Mas, por exemplo Moçambique, forte na área hídrica, possui problemas muito diferentes, pois apenas 13% da população tem acesso a electricidade. Ali, o desafio será desenvolver tecnologias em pequena escala, que produzam energia disponível para as comunidades rurais. A melhor solução poderia ser o solar, mas o custo das células fotovoltaicas é proibitivo.

 

in:DN

12-04-2009


publicado por FQ às 13:44
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