Sábado, 7 de Março de 2009

1816, o ano em que não houve Verão

Pesquisa. Em 1816 não houve Verão na Europa devido à erupção do Tambora, na Indonésia, no ano anterior. O primeiro estudo sobre esse fenómeno em Portugal e Espanha foi agora publicado

Investigação sobre fenómeno na Península Ibérica

 

Em Abril de 1815 o vulcão Tambora, na Indonésia, explodiu com extrema violência, lançando na atmosfera milhões de toneladas de gases e materiais, protagonizando a maior erupção vulcânica do último milénio. No ano seguinte, por causa disso, as temperaturas dos meses estivais sofreram um abaixamento abrupto na Europa e na América e, por isso, 1816 ficou conhecido como "o ano que não teve Verão". Na Península Ibérica, sabe-se agora, também foi assim. É isso que mostra o primeiro estudo sobre aquele fenómeno em Portugal e Espanha.

A investigação foi realizada por um grupo de cientistas portugueses e espanhóis e acaba de ser publicado na International Journal of Climatology.

"Sabíamos que esta questão estava bem documentada na Europa e na América, tínhamos indícios de que a Península Ibérica também teria sido afectada pelo ano sem Verão e, por outro lado, tínhamos conhecimento de que havia alguns dados meteorológicos da época, que alguns de nós já tinham recolhido para outros trabalhos. Decidimos juntar tudo e avançar para o estudo", explicou ao DN o climatologista Ricardo Trigo, do Centro de Geofísica de Universidade de Lisboa, e o coordenador da equipa.

A recolha e a análise dos dados levou cerca de um ano, e depois foi preciso, com base nessa informação, fazer a reconstrução do clima desse ano, para perceber até que ponto tinham chegado as anomalias nas temperaturas desse Verão que, afinal, não foi Verão nenhum.

Um dos relatos recolhidos pela equipa é o de um padre e advogado de Braga, José Manuel da Silva Tedim, que registou assim o estranho comportamento da meteorologia nesse Julho já distante: "Tenho 78 anos e nunca vi tanta chuva e tanto frio, nem mesmo em meses de Inverno".

Tal como aconteceu na Europa Ocidental, embora de forma menos acentuada, a produção de cereais caiu e o vinho ressentiu-se na quantidade e qualidade, porque as uvas amadureceram tarde. Na produção da azeitona os resultados também foram maus, de acordo com os relatos da época.

"Mesmo assim, nesse ano, Portugal e Espanha exportaram cereais para os outros países da Europa, onde as consequências na agricultura foram catastróficas e onde houve mesmo fome", conta Ricardo Trigo.

Meticulosos e observadores, alguns médicos registaram a ocorrência de doenças "fora de época" durante esse meses de Verão. No Algarve, por exemplo, "as doenças devidas ao tempo quente e à influência dos gases dos pântanos, como a desinteria e as febres biliosas e intermitentes não surgiram. Ao contrário, as doenças inflamatórias usuais no Inverno, foram frequentes", escreve um dos médicos de então, citado no artigo Iberia in 1816, the year without a summer, do grupo de Ricardo Trigo.

Importante neste trabalho foi também a recuperação de dados meteorológicos recolhidos nesse início do século XIX por alguns estudiosos em quatro pontos da península Ibérica: Lisboa, Cádiz, Madrid e Barcelona.

Esses registos foram fundamentais para a reconstrução do clima nesses anos de 1816 e 1817. Em Portugal, foi um militar e estudioso da meteorologia chamado Marino Miguel Franzini, quem os fez, em Lisboa e Sintra. A geógrafa Maria João Alcoforado, da equipa de Ricardo Trigo, "desenterrou-os" de uma publicação da Academia de Ciências, de 1779.

 

in: DN 07-03


publicado por FQ às 20:31
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